Entre o Clichê e a Poesia: Os Romances Improváveis da Coreia do Sul que Dominam a Netflix

Entre o Clichê e a Poesia: Os Romances Improváveis da Coreia do Sul que Dominam a Netflix

A Netflix continua apostando alto nas produções sul-coreanas, e o público parece longe de enjoar das diferentes roupagens que os romances do país vêm ganhando. Seja através do humor escrachado ou de uma abordagem mais reflexiva, narrativas sobre casais improváveis seguem conquistando espectadores pelo mundo todo. Dois exemplos recentes que ilustram bem essa versatilidade são a série “Sorriso Real” e o longa-metragem “Pavane”, produções que caminham por estradas opostas para falar sobre o amor.

O embate de personalidades em Sorriso Real

Mergulhando de cabeça na fórmula clássica das comédias românticas, o dorama “Sorriso Real” (também conhecido pelo título original “King The Land”) mostra que a dinâmica de opostos se atraindo ainda rende bastante. A série, que já conta com seus 16 episódios disponíveis na plataforma, foca na velha e adorada premissa do “enemies to lovers” — aquele cenário em que os protagonistas se odeiam antes de se apaixonarem. A trama nos apresenta Goo Won, interpretado por Lee Jun-ho. Ele é o herdeiro milionário e amargurado de um império de hotéis de luxo, o King Group. Criado em um ambiente estritamente focado em aparências, ele desenvolveu uma aversão quase doentia a sorrisos e simpatia forçada. Won governa sua vida profissional com mãos de ferro e não hesita em ameaçar de demissão quem ousa agir de forma calorosa perto dele.

A história engata de vez quando o herdeiro volta ao hotel da família para tentar desvendar as memórias de sua mãe, desaparecida há anos. É exatamente ali que ele cruza o caminho de Cheon Sa-rang (Lim Yoon-A), uma funcionária que é o extremo oposto do patrão. Ela é alegre, super sorridente e dona de uma educação impecável. O ódio à primeira vista por parte de Won é inevitável. Quanto mais ela esbanja simpatia, mais ele cisma com a garota. Contudo, essa tensão constante acaba encurtando a distância entre eles. Com o tempo, as divergências de personalidade abrem espaço para que ambos descubram que existe muito mais no outro do que apenas mau humor ou sorrisos de fachada. Nomes como Ko Won-hee, Kim Ga-eun, Kim Jae-won e Ahn Se-ha completam o elenco da série.

Pavane e a beleza de uma união improvável

Se de um lado temos a comédia vibrante, o cinema sul-coreano também encontra espaço para abordagens bem mais sutis. Dirigido por Lee Jong-pil, o filme “Pavane” pega emprestado o nome de uma dança da corte, conhecida por seus passos lentos e majestosos. O sucesso da obra, no entanto, não teve nada de devagar. Desde o seu lançamento, no dia 20 de fevereiro, o longa rapidamente assumiu a liderança nas bilheterias da Coreia do Sul e cravou o sétimo lugar no ranking global de filmes de língua não inglesa da Netflix. Baseado no romance de 2009 “Pavane for a Dead Princess”, escrito por Park Min-gyu, o roteiro abandona os grandes clímax emocionais. A fotografia em tons pastéis e a condução cadenciada constroem uma atmosfera quase poética.

O foco recai sobre dois funcionários de uma loja de departamentos. Gyeong-rok, vivido por Moon Sang-min, é um aspirante a dançarino que ganha a vida trabalhando duro no estacionamento. Já Mi-jeong, interpretada por Go Ah-sung, carrega o cruel apelido de “dinossauro” e foi relegada ao porão do prédio por não se encaixar nos rígidos padrões de beleza. Quem age como catalisador dessa união é Yo-han (Byun Yo-han), um sujeito carismático e excêntrico cuja própria trajetória ganha contornos surpreendentes e imprevisíveis na reta final da história. Sem forçar a barra, o filme propõe um romance de conto de fadas ousado: a união entre um rapaz incrivelmente bonito, que atrai olhares por onde passa, e uma jovem que a sociedade ao seu redor julga como feia.

Os bastidores e a construção dos personagens

Fazer essa dinâmica funcionar na tela dependia inteiramente da química e da entrega dos protagonistas. Em entrevistas recentes concedidas em Seul, Moon e Go abriram o jogo sobre como foi embarcar nesse projeto. Aos 25 anos, Moon Sang-min confessa que ainda está mapeando sua identidade como ator. Após estourar no drama de época “Papel de Rainha” (2022) e engatar outro projeto no gênero com “To My Beloved Thief”, ele faz sua estreia no cinema com “Pavane”. O ator conta que a primeira leitura do roteiro trouxe uma identificação imediata, pois os diálogos soavam exatamente como sua forma natural de falar. Ele construiu seu Gyeong-rok como um típico jovem na casa dos vinte anos, sem grandes filtros, meio desajeitado, mas extremamente sincero. Ao comentar sobre o que atrai o personagem em Mi-jeong, Moon descarta a justificativa de “pena” que Gyeong-rok chega a dar no filme. Para o ator, o rapaz apenas não sabia como lidar com o turbilhão de sentimentos depois de encontrar alguém que, de forma inédita, conseguiu fazê-lo sorrir.

Do outro lado da balança está Go Ah-sung, de 33 anos. Veterana que atua desde criança, ela já trabalhou com gigantes da indústria, como Bong Joon-ho em “O Hospedeiro” e “Expresso do Amanhã”. Curiosamente, “Pavane” marca sua primeira incursão direta no gênero do romance. Envolvida com o projeto desde as reuniões iniciais em 2017, ela teve bastante tempo para amadurecer Mi-jeong. A atriz revelou que a equipe chegou a cogitar o uso de maquiagem pesada e efeitos especiais para alterar o seu rosto. Acabaram optando por um caminho mais pé no chão e menos artificial. A intenção não era focar meramente na estética, mas em retratar uma mulher profundamente consciente de suas fraquezas, alguém que carrega o peso de suas vulnerabilidades no próprio olhar.

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