O mês de janeiro começou turbulento para o Spotify. Entre anúncios de reajustes na assinatura e a contínua polêmica envolvendo músicas geradas por inteligência artificial, a plataforma de streaming parecia estar na defensiva. No entanto, a empresa sueca está se movimentando para virar o jogo, apostando em inovações tecnológicas e personalização extrema para justificar o valor cobrado de seus usuários Premium e diferenciar seu serviço em um mercado cada vez mais saturado.
Controle total sobre o algoritmo
A novidade mais imediata, que já começou a ser disponibilizada para assinantes nos Estados Unidos e Canadá, é o recurso de “Prompted Playlists”. Após uma fase de testes bem-sucedida na Nova Zelândia, a ferramenta permite criar listas de reprodução utilizando comandos em linguagem natural. Diferente das mixagens algorítmicas tradicionais, onde o ouvinte assume uma postura passiva — apenas aceitando ou pulando sugestões —, este novo recurso inverte a dinâmica.
Segundo Molly Holder, vice-presidente de personalização de produtos do Spotify, os usuários não querem apenas ser compreendidos pela plataforma, mas desejam moldar ativamente sua própria experiência. Na prática, isso significa que o assinante pode descrever com suas próprias palavras e intenções o que deseja ouvir, estabelecendo regras específicas que o algoritmo deve seguir. Além disso, a ferramenta introduz uma dimensão prática de agendamento: é possível configurar playlists para se atualizarem automaticamente, seja diariamente ou semanalmente, garantindo que a trilha sonora do treino de segunda-feira ou do relaxamento de sexta à noite esteja sempre renovada sem intervenção manual.
Estratégia para justificar novos preços
O timing desse lançamento é estratégico. O Spotify anunciou recentemente que a assinatura Premium nos Estados Unidos subirá para 12,99 dólares mensais a partir de fevereiro, um aumento de um dólar. Movimentos similares de preço afetarão mercados como a Estônia e a Letônia. Ao liberar ferramentas exclusivas e sofisticadas pouco antes de os usuários sentirem o impacto na fatura, a empresa busca consolidar a percepção de valor do serviço pago, tornando a migração do plano gratuito para o Premium mais atrativa.
A aposta da companhia continua sendo a personalização como diferencial competitivo. Enquanto outros serviços de streaming oferecem catálogos igualmente vastos, o Spotify argumenta que ninguém entende o gosto individual do usuário como seus algoritmos. As novas playlists por prompt, ainda em fase beta e disponíveis apenas em inglês, são a materialização desse argumento.
Inovação à vista para audiolivros
Enquanto as novidades de IA já estão chegando aos consumidores, os bastidores do aplicativo revelam outra funcionalidade promissora, desta vez voltada para o mercado editorial. De acordo com informações obtidas pelo portal Android Authority através da análise de códigos do aplicativo, o Spotify está desenvolvendo um recurso chamado “Page Match”. A ideia é simples, mas tecnicamente robusta: utilizar a câmera do celular para escanear a página de um livro físico e sincronizar automaticamente o audiolivro no aplicativo para aquele ponto exato.
A tecnologia baseia-se no reconhecimento óptico de caracteres (OCR) para ler o texto impresso e encontrar o registro de tempo correspondente no áudio. O recurso promete funcionar também no sentido inverso, permitindo que o usuário localize no livro físico o trecho que está ouvindo no aplicativo. Isso daria ao leitor a liberdade de alternar fluidamente entre a leitura em papel e a audição, dependendo de sua conveniência no momento.
Quebra de barreiras no mercado editorial
Se confirmado, o “Page Match” representaria uma inovação significativa no setor de streaming de audiolivros. Atualmente, a Amazon oferece um serviço de sincronização semelhante, mas ele é restrito ao seu próprio ecossistema, funcionando apenas entre audiolivros da Audible e e-books do Kindle. A proposta do Spotify parece ser muito mais abrangente, permitindo a sincronização com qualquer cópia física que o usuário possua ou tenha adquirido por outros meios.
Ainda não há uma data oficial para o lançamento ou confirmação de que a funcionalidade sairá da fase de desenvolvimento. Contudo, a presença dessas referências no código do aplicativo sugere que a novidade pode estar mais próxima do que se imagina. Com essas iniciativas, o Spotify reforça que seu plano para 2026 é claro: usar a tecnologia para criar uma experiência de consumo de áudio que a concorrência não consiga copiar facilmente.