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01/03/2017 - 8:44

Palavra respeito não existe nas diretrizes da Uber

por Luís Perez

Iludido com a promessa de dinheiro fácil e rápido, você decide virar motorista parceiro da Uber. Investe algumas dezenas de milhares de reais (talvez mais de uma centena!) em um carro novo, na mudança da documentação (é preciso ter CNH com a inscrição “exerce atividade remunerada”) e em água e guloseimas para surpreender o cliente.

É aprovado, segue com ótima avaliação até que, num belo dia, o aplicativo não entra. Tudo o que se vê é o aviso: “A conta de parceria com que dirigia foi desativada”. Isso mesmo: o motorista parceiro da Uber é o elo mais fraco de uma cadeia um tanto perversa. Afeito a cumprimentos efusivos – “Olá, como vai? Espero que esteja tudo ótimo!”, por exemplo –, o suporte por e-mail da empresa parece seguir os mais toscos manuais de motivação. Esse mesmo suporte aparentemente é treinado para ceifar sem a mínima satisfação qualquer profissional do volante que não se encaixe em alguma de suas regras, por menos que isso tenha sido feito com dolo e por mais bem avaliado que seja esse “parceiro”.

Investi mais de R$ 300 na documentação, incluindo R$ 90 em um exame psicotécnico, mais quase R$ 50 mil em um automóvel novo. Comprei um carro pequeno – Volkswagen up! com motor TSI de até 105 cv (com etanol). Investi ainda R$ 50 no seguro para passageiros, que hoje nem é mais obrigatório. Mas todo esse investimento, como veremos, é aviltado pela empresa – e pode ir pelo ralo de uma hora para a outra, sem a mínima satisfação.

Um certo dia o aplicativo simplesmente não entrou. O suporte não respondia por quê. Colegas de grupos no WhatsApp (extraoficiais) dos quais faço parte me aconselharam a me dirigir pessoalmente ao escritório da empresa, em São Paulo. Foi o que fiz. Peguei fila, tirei senha, fui atendido e pronto! O aplicativo voltou a funcionar. Questionei o porquê do bloqueio, o atendente desconversou. Fui embora sem uma resposta convincente, mas pelo menos com o aplicativo ativo.

Dias depois, sem que eu nem tivesse dirigido, travou de novo. Voltei a escrever. O suporte demorou a responder e o que disse foi: “Olá Luís. Parece que a sua conta foi suspensa porque houve uma violação dos Termos de Uso do aplicativo da Uber. Por isso, a sua conta estará indisponível até determinado contrário. Nós entraremos em contato caso a gente decida suspender esta medida. Estou à disposição caso tenha alguma dúvida. Equipe Uber”.

Sintomático. Quando a correspondência é para “dar um gancho”, o atendente nem sequer se identifica. Ainda respondi: “Bom dia. Li os termos de uso e não reconheci em que ponto posso tê-los infringido. Vocês poderiam ser mais específicos? Lembro que sempre fui um motorista parceiro absolutamente bem avaliado, acima da média dos principais parceiros, inclusive. Fico no aguardo”. Resposta? Nada.

Ou seja, se você pretende investir algumas dezenas (ou até mais de uma centena) de milhares de reais para virar motorista parceiro da Uber, saiba que a empresa pode dispensá-lo sem dar a mínima satisfação na hora em que bem entender. Até ser punido, como motorista parceiro fiz 283 viagens. Fui extremamente bem avaliado – estava com avaliação em 4,86 (com picos de 4,89; a média dos principais parceiros, segundo o próprio aplicativo indicava, era de 4,84, ou seja, eu estava acima).

Sei que dá “pena de morte” ao parceiro casos como alcoolismo e assédio – e eu estou muito longe de praticar qualquer um desses atos. Pelo contrário. Oferecia, além de água e balas, até refrigerantes, M&M e Dadinho, iguaria servida por Alex Atala em seu restaurante D.O.M., conforme depoimento à revista “são paulo”, da “Folha de S.Paulo”.

Portanto, antes de virar parceiro da Uber, tenha em mente que não vale a pena investir alto. Não é improvável que você morra com o prejuízo na mão, sem que tenha nenhuma satisfação. Opção de renda extra!? No meu caso, opção de puro prejuízo. Pena. Melhor usar um carro velho que esteja na garagem – relaxe, a Uber nem sequer checa se o seu veículo é seguro ou está ou não caindo aos pedaços…

“Outro lado”

Além de fazer contato com a assessoria de imprensa da Uber (a agência Imagem Corporativa), que mesmo após sucessivos contatos telefônico não respondeu à minha solicitação, fui novamente até o escritório da Uber, que ocupa o 30º andar de um prédio envidraçado na Barra Funda (zona oeste de São Paulo).

Esperei cerca de 20 minutos para ser atendido – que se dá com o atendente em pé, olhando para uma tela de computador a que o motorista parceiro não tem acesso. Eis que ele demora alguns minutos para me responder, olhos arregalados, fixos na tela. Pergunto por que fui bloqueado pela segunda vez.

“Então, é que da outra vez já era isso. Não deveriam ter te reativado. Colocaram trancas em seu cadastro”, afirma. Fui bloqueado não só como parceiro, mas também como usuário da Uber. Segundo ele, foram colocados bloqueios por número de celular, CPF, CNH e e-mails, que fazem com que, sempre que tento entrar em contato com a Uber venha de imediato uma resposta-padrão em português lusitano: “Agradecemos desde já o seu contacto. Infelizmente a sua mensagem não foi recebida pela nossa equipa de apoio porque nos contactou a partir de um canal que já não está em funcionamento ou não é monitorizado: (1) Respondeu a um contacto antigo que se encontra já fechado (2) Enviou uma mensagem para um endereço que não é válido. Continuamos empenhados em esclarecer as suas questões. Pedimos que nos envie o seu pedido através da sua aplicação Uber, escolhendo a opção “Ajuda”, ou através do nosso site de apoio help.uber.com/pt_pt. Até breve, A sua equipa Uber”.

Pergunto se houve alguma ocorrência grave durante alguma viagem. “Eu imaginei que fosse, mas não fica claro”, responde. “Não tem nada relacionado a viagens. Tem relacionado a critérios internos da Uber de avaliação”. Que critérios? Ele não diz. O que aconteceu? Ele não esclarece. Diz que posso procurar meus direitos na Justiça. Restou-me utilizar os serviços da Cabify.

“Eles respeitam mais a gente do que a Uber, que dispensa motoristas sem dar a mínima satisfação”, disparou o motorista, sem nem sequer eu ter contado minha história triste. “Não dá para ter a Uber como fonte principal. Primeiro, pela instabilidade, pois a empresa é uma ‘caixa-preta’. Tem muita história nebulosa por lá. Segundo, porque a conta não fecha”, disse-me uma motorista parceira da Uber.

“Eu, por exemplo, só saio nos horários de pico, quando há preço dinâmico [sobrepreço quando a procura é superior à oferta de carros]. Quando o preço está normal, não vale a pena. Nessa hora eu estudo para passar em um concurso público.” Não foi só comigo. Vi vários parceiros no prédio da Uber reclamando por terem sido banido sem razão aparente e sem a mínima satisfação. De fato, “parceiros” mais atentos já notaram que a Uber não deve ser levada a sério e que a palavra respeito passa longe das diretrizes da empresa.

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