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05/04/2019 - 15:54

Coletivo de Teatro Alfenim mostra no Tusp espetáculos Memórias de um Cão e Helenas

por Luís Perez

Com 13 anos de trajetória, o Coletivo de Teatro Alfenim, natural de João Pessoa, na Paraíba, apresenta ao público paulistano dois de seus trabalhos em curtíssima temporada na Sala Multiuso do Tusp – Teatro da USP.

Voltado ao público adulto, Memórias de um Cãofica em cartaz entre 11 e 14 de abril, de quinta a domingo, com ingressos grátis e uma sessão especial com intérprete em Libras, no dia 11, quinta-feira. Já o infantojuvenil Helenas tem sessões entre 18 e 21 de abril, com ingressos por até R$20.

A circulação de Memória de um Cão pelas cidades de São Paulo/SP, Rio de Janeiro/RJ e Vitória/ES é possível por meio da Lei 8.313/91 – Lei Rouanet, e do Programa Petrobras Distribuidora de Cultura.

Memórias de Um Cão

Memórias de um cão parte do estudo da obra de Machado de Assis para propor uma abordagem crítica das estratégias de dissimulação, engodo e autoengano que marcam no campo subjetivo e político as relações sociais do Brasil. Narra a trajetória de ascensão e queda de Rubião, um mestre-escola interiorano que, às vésperas da abolição da escravatura, se muda para a Corte, após receber uma herança de seu benfeitor, Quincas Borba, um típico escravocrata, autodenominado filósofo, que ocupa seus dias ociosos de proprietário e rentista com especulações amalucadas sobre a “natureza humana”.

Como condição para usufruir a herança, o recém-endinheirado deve cuidar do cão Quincas Borba, que tem o mesmo nome de seu benfeitor. Essa exigência testamentária, uma variante do pacto fáustico, traduz na prática as determinações do “Humanitismo”, espécie de doutrina heterodoxa criada por Quincas Borba, cujo princípio pode ser sintetizado na máxima “Ao vencido, ódio ou compaixão; ao vencedor, as batatas”.

Tornado capitalista da noite para o dia, Rubião irá flanar pelas ruas elegantes de um Rio de Janeiro em processo vertiginoso de modernização, buscando inserir-se num círculo de relações de favor, marcadas pelo preconceito de classe e pela futilidade de um mundo apartado do trabalho.

Enquanto torra o dinheiro da herança, o mestre-escola experimenta uma vida de luxos e compensações imaginárias a tal ponto irreais que pensa ser o próprio Imperador francês Napoleão III, numa clara alusão às pretensões da elite brasileira de tornar o Brasil uma nação do primeiro mundo, com a importação de um liberalismo fora do lugar e vistas grossas ao tráfico de escravos.

A partir da leitura do romance Quincas Borba,o Coletivo Alfenim propõe uma alegoria tragicômica da desfaçatez com que a elite econômica e cultural brasileira tenta isentar-se de sua responsabilidade histórica pela barbárie que marca o processo de modernização do país.

Pautando-se pela ironia contida nessa espécie de anti-romance modelar, o espetáculo procura expor as contradições de uma sociedade em formação que almeja reconhecer-se no espelho da modernidade, sem abrir mão de prerrogativas de classe como a exploração da mão de obra escrava, a espoliação do incipiente trabalho livre e a apropriação da riqueza nacional por parte de sua elite econômica, a partir da instrumentalização das instâncias do poder público, numa nação recém-saída da condição de colônia portuguesa. E o faz tendo em mente que as semelhanças com a atualidade não são mera coincidência.

Sobre o Programa Petrobras Distribuidora de Cultura: é uma seleção pública que tem como objetivo contemplar projetos de circulação de espetáculos teatrais não inéditos, em parceria do Ministério da Cultura. No último edital foram investidos R$ 15 milhões. Ao todo, foram escolhidos 57 espetáculos, representantes de todas as regiões do País, com apresentações em todos os estados.

Helenas

O mais recente trabalho do Coletivo Alfenim, o espetáculo infanto-juvenil Helenas, com dramaturgia de Márcio Marciano e direção de Paula Coelho, é inspirado no livro “Minha Vida de Menina: os Diários de Helena Morley”, pseudônimo de Maria Caldeira Brandt, que viveu em Diamantina (Minas Gerais).

Cena de “Helenas”, baseada no livro “Minha Vida de Menina: os Diários de Helena Morley”

Cena de “Helenas”, baseada no livro “Minha Vida de Menina: os Diários de Helena Morley”

A peça retrata impressões registradas no diário de uma adolescente entre seus treze e quinze anos de idade que viveu no final do século 19. Apesar de tratarem-se de acontecimentos de infância vividos em um ambiente rural em vias de urbanização, o encantamento e a ironia com que a menina Helena descreve suas descobertas confere à narrativa uma extrema atualidade.

Raça, gênero, crença, educação, bem como o lugar da mulher em uma sociedade patriarcal, são tratados a partir do olhar – ao mesmo tempo inocente e desafiador – de uma menina que não se prende a regras ou estereótipos. O elenco é formado por Joseph Cavalcante, Mayra Ferreira, Murilo Franco e Vítor Blam.

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