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26/03/2019 - 22:24

A herança de Otavio Frias Filho no modus operandi da imprensa

por Luís Perez

Fui acordado pelo WhatsApp pela minha mãe às 5h38 da madrugada do dia 21 de agosto: “Filho, bom dia. Você viu que morreu Otavio Frias Filho?”. Meio assonado, ainda pensei: “Ora, mas ele morreu há 11 anos”. Acordando, me dei conta: quem morreu foi o filho, meu grande interlocutor, um ídolo, diretor de Redação, escritor, ensaísta, que nos últimos 34 anos comandou o jornal com mão de ferro, mudou o rumo da imprensa brasileira. E isso não é chavão.
Pude comprovar tal fato em uma reportagem que realizei há duas semanas ao confrontar Anfavea e Uber (https://bit.ly/2NJmGpg). Em uma era pré-Otavio, muito provavelmente a Uber viria para cima de mim com seu poder econômico para impedir sua publicação e não simplesmente responderia como aconteceu. Otavio mudou os rumos da imprensa, pois diversos veículos absorveram, talvez até sem perceber, metodologias adotadas a partir do Projeto Folha desde que ele assumiu a Redação do jornal, em maio de 1984.

Otavio morreu às 3h20 da madrugada de 21 de agosto de 2018 vitimado por um câncer originado no pâncreas apenas 11 meses após sua descoberta. Seu jeito tímido escondia uma pessoa extremamente educada, que dava passagem a todos no elevador, se preocupava se o aparelho estava funcionando, mas, ao mesmo tempo, às vezes não tinha muita paciência para esperá-lo e recorria às escadas – descia-as, nas palavras de um editorialista do jornal, “voando”.

O diretor de Redação que recebeu um adolescente de seus 15 anos

O diretor de Redação que recebeu um adolescente de seus 15 anos

Mas o funcionário podia ser foca. Se escrevesse algo que o incomodasse, era chamado em sua sala para ouvir um sermão e, é claro, interagir. Otavio sabia ouvir e, não raro, acatava as sugestões do interlocutor. Foi uma das pessoas mais inteligentes se não a mais inteligente que já conheci. Confesso: por conta disso, eu tremia, tremia ao falar com ele. Literalmente. Eu tremia, gaguejava. Odiava isso, mas tremia. Não fui ao velório, foi muito em cima da hora e Itapecerica da Serra é meio fora de mão para mim.

Mas à missa de sétimo dia, no Sumaré, fiz questão de ir. E quem me viu lá nem imagina em que circunstâncias conheci Otavio – e elas demonstram bem o envolvimento dele com o ofício do jornalismo. Eu tinha 15 anos – ele, portanto, tinha 30. O ano era 1987. Eu cursava o 1º colegial. Estava sendo lançada a segunda edição do Manual da Redação (a primeira é de 1984). Eu, que me considero jornalista desde os 8 anos de idade, já era fã de carteirinha da Folha de S.Paulo, sonhava em trabalhar lá, o que se concretizou em 1990, no princípio sem nenhuma ajuda do Otavio. Aliás, nunca usei o contato que teríamos para me beneficiar profissionalmente ao longo dos anos.

O professor de geografia do colegial estadual em que estudava pediu que fizéssemos um trabalho: entrevistar o dono de uma empresa e um subordinado dele. Esse trabalho foi pedido em meados do ano. Liguei para Cassia, então secretaria do Otavio, no ramal 4141 (até hoje, presumo, ramal da Direção da Redação), e solicitei a entrevista. Ela pediu que eu aguardasse.

Os meses foram se passando, até que eu acabei fazendo o trabalho em uma metalúrgica. Em 8 de dezembro de 1987, porém, Otavio me recebeu em sua sala. Perguntei por que me recebera. Ela disse que sempre que um estudante pedia uma entrevista ele tinha por política “marcar e ter essa conversa com ele”. Eu moleque, 15 anos, magrinho, usando aparelho, então não mais para um trabalho (e para uma experiência pessoal, lógico), mas para o jornal para a família e a escola que eu editava – “O Bisbilhoteiro” – que fiz questão de mostrar para ele (e ele gostou!)…

Começava ali uma série de contatos frequentes. Ele me dava vários aconselhamentos. Bacharel em direito, dizia que direito era chato. Sugeriu que eu fizesse história – sugestão seguida, cursei na USP –, que procurasse na faculdade de jornalismo apenas o diploma e que, na rua, buscasse absorver o máximo de experiências sensoriais para aplicar no que eu realmente gostava, o jornalismo!

Impressionava-me seu desprendimento material e diversas vezes neste espaço usei termos ou expressões que dele de forma direta ou indireta me lembrei (exemplo: ser uma pessoa de hábitos simples). Por circunstâncias naturais, conheço praticamente toda a cúpula do jornal. Há uns dois ou três anos, fui almoçar com uma pessoa que faz parte da cúpula e que me contou que o Otavio me recomendou para lá trabalhar, dizendo que eu era “um menino bastante promissor”. Nessa mesma conversa, meu interlocutor dizia não entender por que ele trabalhava tanto depois de ter amealhado uma fortuna nos 30 e tantos anos (foram 34 até sua morte) em que permaneceu à frente da Redação do jornal.

A carta de recomendação que ele fez quando eu deixei o jornal

A carta de recomendação que ele fez quando eu deixei o jornal

Mas vamos continuar a história. Em 1990, estando cursando história à tarde na USP e jornalismo à noite na PUC-SP (um louco de pedra), encontrei um colega no ônibus. Ele me disse que a extinta Folha da Tarde estava em busca de free-lancers. Não tive dúvidas. Desci na avenida São João, fui até o prédio da alameda Barão de Limeira e pedi trabalho à editora. Ela pediu que eu voltasse no domingo. Foi aí que comecei a frilar direto para o jornal. Buraco de rua, secretário da Luiza Erundina que assumia, o melhor sanduíche do bairro tal… Ao mesmo tempo, encontrava Otavio em seminários de jornalismo. Sempre em contato com ele. Continuava a fazer entrevistas com o Otavio, fiz um perfil dele para a PUC. Ao final de uma delas, ele aconselhou: “Vá ouvir o pessoal do Sindicato dos Jornalistas, que não gosta de mim”. Ele já me recebia com um “E aí, rapaz?”.

Até que um dia a Folha realizou um Programa de Treinamento. Na base da lauda e da máquina de escrever. Foi em julho e agosto de 1991, sob o comando das jornalistas Paula Cesarino Costa (hoje ombudsman do jornal, que conviveu com Otavio durante 34 anos) e Sandra Muraki (extremamente competente na arte de encontrar e moldar talentos). Foi o Otavio me indicou para uma das vagas.

Da Folha da Tarde fui para o quarto andar. Lá começou minha história, primeiro como repórter do Fovest e do Folhateen, sob o comando de nomes como Sergio Sá Leitão (hoje ministro da Cultura) e do escritor Mário Magalhães, depois editor do house organ Folha por Folha, com quem tive a honra de ser chamado de grande editor pela superintendente Judith Brito e de ter ficado na memória do editor-executivo Sérgio Dávila como um jornal muito bem feito. Depois fui para Suplementos e passei por praticamente todas as editorias da Folha – com carteira assinada, nove anos e dez meses.

Tive meu talento em realizar boas reportagens, conseguir bons personagens, editar com maestria, titular com criatividade, vender boas pautas, trabalhar desde a produção até a Primeira Pagina, tudo reconhecido por todos. Saí em 2003, em um dos periódicos cortes que o jornal promovia, ao que Otavio me ligou e prometeu me procurar quando as coisas estivessem “menos piores”. Ofereceu-me uma carta de recomendação que a princípio recusei. Após desligar, pensei: “Onde estou com a cabeça? Posso conseguir emprego relativamente fácil, mas a carta (que aqui reproduzo) será um documento histórico!”

Hoje sou publisher do Carpress, um site, uma revista eletrônica voltada ao mundo da mobilidade que há três anos está no vermelho. A publicidade e o pouco patrocínio não paga mais as contas dele nem as minhas. Ou seja, com tanta estrada, experiência e talento para doar, digo com todas as letras: estou no mercado. Tanto para projetos avulsos conteudísticos quanto para trabalhos fixos deste ou daquele lado do balcão. Passei por problemas de saúde que, felizmente, são passado. Agora é erguer a cabeça e emprestar minha força de trabalho, disposição e criatividade. A mesma criatividade daquele imberbe de 15 anos que entrevistou o Otavio, 30.

Mas esta coluna é um tributo. Afinal, que cara na posição dele receberia um moleque de 15 anos – eu me lembro da entrevista, ela foi absolutamente séria – para uma conversa daquelas?

Ah, essa nossa sede de ser bom no que fazemos tão cedo…

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